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Fetiche, objetos de desejo

Dia dos Namorados pede um assunto mais safadinho, não? Falemos então de fetiche. O termo tem atribuições que variam com o contexto, no geral envolve-se com desejo, e segundo o dicionário é um “objeto com poderes mágicos, que se presta ao culto”. Indo para o lado do erotismo em si, é um objeto ou parte do corpo com qualidades que provocam excitação sexual.

“Fetiche é o objeto de desejo que mexe com nosso poder e também com a nossa percepção sobre o outro.” Janaína Medeiros, jornalista e pesquisadora de moda.

Quando se atribui significações a um objeto, este passa a ter o poder de afetar o indivíduo que se relaciona com ele. O fetiche refere-se à contemplação, o desejo de ser agarrado, possuído e devorado (MITCHELL, 2005). Um ser inanimado pode causar euforia e obsessão, exercendo domínio sobre uma pessoa. Nota-se que “fetiche” não se relaciona a amor, mas com uma coisa, que será a mesma com diversos parceiros.

O termo tem uma linha complexa de estudo, sendo explorado pela psicanálise e o materialismo histórico, Marxismo. Para Freud, “o fetichismo é definido como uma forma de ocultar a falta de algo, nascendo com a recusa por parte do indivíduo moderno em admitir a diferença sexual entre homens e mulheres” (PASCUETO, Cinthia, 2013). Marx utiliza a expressão ao referir-se ao “fetichismo da mercadoria”, em que se transforma o produto do trabalho humano em mercadoria. Ou seja, fetiche está relacionado com a troca entre o real, que “precisa” ser ocultado, por um objeto que ganha um apelo “mágico” sobre o indivíduo.

O fetichismo é uma relação extremamente individual, de caráter privado. Apesar da sua particularidade, existem alguns fetiches bem comuns, como sapatos, lingeries, peças de couro, cores (vermelho e preto são campeões quando o assunto é sensualidade), tipos de tecido, uniformes (ai, aquelas mulheres loucas por um bombeiro) e partes específicas do corpo, como os pés ou unhas.

É comum confundir fetiche e fantasia sexual, o primeiro trata-se de algo pontuado, ou seja, o indivíduo sabe verbalizar o que lhe atrai. O segundo relaciona-se a um desejo que nem sempre é fácil de ser decifrado, mas sentido. A pessoa constrói em seu imaginário situações, que muitas vezes não podem ser contempladas. No fetichismo é essencial que o objeto de desejo seja real.

O tema provoca controvérsias, mas a verdade é que explorar o erotismo na moda, publicidade, produtos e mídias em geral, é uma receita de sucesso. Pense em “50 tons de cinza”, que, apesar de uma história fraca e um tanto duvidosa, provocou vários fetiches e fantasias no público. As roupas em couro e saltos altos nada têm a ver com conforto, mas com o desejo de provocar.

Vivemos em uma realidade em que o ser humano é transformado em um produto de consumo em massa, vê-se as estrelas da tv e internet. Pessoas, principalmente mulheres, produzidas sob uma fórmula para vender o desejo. Ou seja, são objetificadas e moldadas para caberem em arquétipos. Essa erotização é explicada pelo conceito de “prazer visual”. De acordo com Laura Mulvey (1983), o indivíduo pode obter prazer ao observar, estímulo visual, ou ao se identificar com a imagem, narcisismo. Essa erotização é construída, fortemente, com o auxílio de certas indumentárias, ou seja, vestimentas e acessórios desenvolvidos com base em fetiches comuns. Um corpo vestido tem uma carga erótica maior que a própria nudez (CABRAL, Gabriela, 2016).

“Damas na mesa, p**** na cama”

Se existe algo que relaciona o erotismo e a moda, é a lingerie. As roupas íntimas têm várias funções, entre elas proteger o corpo do atrito com a roupa, e também se relaciona à higiene. Porém, durante o século XIX, a roupa íntima ganhou outro significado, o desejo. Na era vitoriana, a mulher deveria ser contida, sua moral inquestionável, uma dama. Entretanto, as roupas que estavam por baixo de tantas camadas de tecido, eram extremamente adornadas, revelando os prazeres femininos da vida privada. O espartilho é a peça chave desse período.

Os objetos exercem fascínio sobre o ser humano. As possibilidades de prazer que incitam fazem com que o indivíduo dedique parte de sua vida para obtê-los, transformando-se em itens de adoração e obsessão. Utilizar-se sabiamente das coisas, como a indumentária, atribui a uma pessoa o poder de manipular a percepção do mundo sobre ela. Ou seja, seres inanimados são dotados de significados que vão muito além de sua função. E sua decodificação está em uma atmosfera regada de boas e más intenções.

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